23.11.17

Fetish Lab - Ata



Querida Festa BDSM,
Nos conhecemos há tantos anos, nos encontramos centenas de vezes, a maioria aqui no Rio de Janeiro, mas também em outros estados, como São Paulo e Minas Gerais. Foram poucos os nossos desencontros e menores ainda nossas decepções. Sei que você faz mais parte da minha vida do que eu da sua - apesar dessa lógica já ter sido inversa - mas sinto orgulho de ter sido e ainda ser o responsável por essa sutil mudança, que na verdade não quer dizer muita coisa para nós dois e muito menos para o restante das pessoas que também a amam. Suponho que soe engraçado ouvir dizer que alguém te ame, visto que o amor normalmente é usado entre pessoas, seres vivos semoventes que cultuam sentimentos desse tipo, que podem ou não ser recíprocos e duráveis. E pode ser que esse seja o ponto do xis da questão desse amor: a duração, já que não sinto isso todos os dias. Por exemplo, eu amo meus pais todos os dias, você só naqueles momentos especiais em que estamos juntos, que atualmente andam sendo mais esporádicos ainda. Mas ainda quero sentir mais vezes, porque é diferente pra caralho, é como se fosse um estado latente que fica sufocado e ao mesmo tempo em plena abolição, louco para extravasar logo. E quando está chegando a hora parece que mais inflamado fica, querendo romper com qualquer barreira de pudor e preconceito, fugir de todas as  convenções sociais que esse mundo do caralho tenta nos prender. E de repente, como se a pressa nunca houvesse existido, estamos lá juntos novamente, envolvidos, e subitamente tudo fica diferente, as cores, os contatos, os sabores, os olhares; a liberdade perfeita bem ali ao nosso alcance, não somente para ser usufruída, mas especialmente para ser modificada, para pegar o tom, as cores e os sabores que nós mesmo escolhermos. Um mundo feito a nossa própria imagem, complacente a nosso espírito. 

E depois dessa introdução meio louca, meio apaixonada, você deve estar se perguntado o porquê de eu estar direcionando esse texto a você, já que sempre escrevo sobre você e nunca para você. Eu poderia te dar inúmeras justificativas, mas vou direto ao ponto, e futuramente talvez eu discorra ou comente sobre as demais. É porque esse é meu último e primeiro texto. Último porque parei com as atas (apesar do cabeçalho ainda conter o termo), e primeiro porque continuarei a escrever sobre os eventos e demais coisas do BDSM, mas sem aquela obrigatoriedade que eu mesmo me impunha.  Agora é no relax mesmo, sem correções, anotações e/ou cronologias. Já são tão escassas nossas noites juntos que se eu ficar perdendo tempo com papel, caneta e lembrança, vou te curtir ainda menos.
Na nossa última noite juntos, por exemplo, a caneta estourou no meu bolso dentro do ônibus, e ainda sujou meu papel de anotação, aí tive que parar no botequim, único lugar aberto naquela hora da noite na Lapa, me fazer de simpático com o dono do bar, rir das suas piadas sem graças, elogiar o pastel de vento frio dentro da estufa desligada, para no final perguntar se ele vendia caneta (que eu já sábia que não), e choramingar de necessidade por uma, até ele se comover e me presentear com uma das que ele usa no caixa. Deu certo, mas foi foda. Depois mudei de bar porque Tonhão estava do outro lado da rua com Lavínia e sua irmã linda pintada de coelhinha. Chegou mais gente, acho que foi o Giovani, mas não lembro ao certo. Depois de beber umas geladas com essa turma fui ao seu encontro, mas tinha um amontoado de gente na porta. E os organizadores montaram duas filas, uma para aqueles que já tinham adquirido os ingressos via internet, e outra para aqueles que ainda iriam compra-lo. Você estava muito requisitada naquela noite, e ainda por cima de espaço novo, enorme. E carioca adora isso.

Engraçado que no passado eu idealizava que você fosse exatamente do jeito que você é hoje, um evento cujo tema principal fosse o BDSM, mas sem aquelas barreiras e liturgias que alguns organizadores insistem em impor. Adoro chegar e ver gente nova, de outras tribos, olhares curiosos, flertes entre raças completamente distintas. Dessa vez, o organizador Julinho acertou em tudo, 100% nas escolhas (exceto a fila enorme, mas não é culpa dele se você bombou mais que o esperado). O que achei mais legal foi que os três andares se completavam apesar de serem bem distintos. Os adeptos mais frequentes do BDSM tomaram conta do terraço, lotou o espaço. O andar do meio era o limbo, frequentado por todos, trilha sonora mais elaborada para gostos refinados e um espaço maior para as performances. E o andar de baixo ficou tomado por uma turma mais “santinha”, sem quase nenhuma play e uma trilha sonora que vagava entre o pop rock e o funk.  Mas foi nesse espaço mais baunilha que a Rainha Branca de Neve abriu os trabalhos da noite, acho que antes mesmo de eu chegar, visto que mal coloquei os pés dentro do lugar e ela já estava com dois podólatras apaixonados fazendo seus devidos deveres. Os trabalhos BDSM em si acho que quem abriu fui eu, sendo pisado rapidamente pela Rainha Cris, e depois naquele trample inicial com a mesma Rainha que quando me vê nessas festas logo me joga no chão e já me pisa. Logo depois disso uma Rainha com um lindo rosto que expressava maldade me mandou beijar seus pés, e eles estavam sujos. Raramente uma Rainha é ousada a esse ponto, de ir a uma festa fetichistas para ter os pés adorados e não os limpar antes. Lembro que na antiga Festa Desejo lá no Catete no comecinho desse século, a bela Rainha Stephany fazia isso, depois nunca mais vi alguém fazer, provavelmente pelo fato de acharem que ninguém vai se disponibilizar para limpas seus pés nesse estado, o que pessoalmente acho improvável: a podolatria abrange um leque enorme de adeptos e temos os gostos mais variado para todos os tipos de pés em qualquer estado. Bem, para resumir, limpei os pés dela com minha língua, depois fui tomar uma cerveja, comprei uns tíquetes, dei um para a Rainha Demônia e comecei a beber de leve. Dessa vez não fiquei bêbado, bebi pouco e muita água. Inclusive segurei a onda de algumas pessoas, entre elas a pequena e linda Luana, e uma mulher que estava trêbada lá no primeiro andar. Essa estava hard, com dificuldades até de parar de pé. Avisei ao barman para não servir mais álcool para ela e comprei uma água com meu próprio dinheiro. Ela se recusava a se hidratar. Quando a gente está nesse estado a gente quer mais álcool, sei como é isso. Mas não me dei por vencido, fui lá e insisti, dava de beber diretamente na boca dela, já que ela se recusava a segurar a garrafa. Depois ficou achando que eu a estava cantando, e insinuou que era uma estratégia minha “cuidar” das garotas que passavam mal para poder ficar com elas.  Não sei se fui grosso, mas respondi que nem a minha última intenção seria a de ficar com ela, e ela me olho meio de desdém, pegou a garrafa e começou a beber por conta própria. Meia hora depois voltei e ela parecia melhor, estava atracada aos beijos com Tarantino, que pareceu não ter se incomodado muito com o estado alcoólico dela.

Tinha gente lá que eu não via há anos, inclusive uma loirinha que era sub de algum dominador das antigas e havia desaparecido dos eventos, ela pediu para me pisar e fomos para o X que ficava localizado no vão de ferro entre o primeiro e o segundo andar. Me pisou bastante e com muita experiência. Depois a Karol me pisou a pedido de outra mulher, que disse que eu era resistente, e que era o cara do trample – fama do passado que ainda me persegue. Um pouquinho depois disso minha fama de ser bom de chão poderia ter voltado, fiz um trample violentíssimo com a Rainha Layla e mais uma amiga dela que foi pela primeira vez. Elas me pisaram de maneira tão intensa que pareciam não se importar comigo. Não pisavam caminhando como se estivessem andando em alguém, pisavam com força, como se testassem minha resistência ao máximo. Pena que pouca gente presenciou, foi incrível. Isso, é claro, já diminuiu uns cinquenta por cento da minha bateria, e partir daí já me segurei um bocado para aguentar o restante da noite.
Fui olhar os acontecimentos e beber com os amigos, assisti a Lavínia fazer um trample fodástico com Karioca, e as várias plays que a Linda Rainha Raposinha fazia em quem a desafiasse. Assisti o Mário quase ser morto sob os pés da Demônia, com aqueles saltos que pareciam que atravessariam o peito do tapete. E também presenciei um belo Shibari seguido de Spanking do Mestre Akira em sua escrava. Servi de apoio para os pés de uma Rainha sedutora, que depois me fez lamber suas solas. Bebi cerveja com o maravilhoso e belo casal Peccatore e Nanda Hell, essa última fantasiada sinistramente de zumbi -  era de dar medo -, e acreditem, a maquiagem conseguiu deixar aquele rostinho lindo e delicado em algo realmente assustador.  No segundo andar, durante um spanking qualquer, uma gatíssima pediu para eu massagear seus pés, o que atendi prontamente, e também massageei as “patinhas” sedutoras da linda coelhinha, irmã da Rainha Lavínia. No final, para fechar a noite com chave de ouro, pedi um trample à Rainha Raposa, mas eu já estava com a bateria no vermelho e pedi arrego logo no início.

Já amanhecia o dia quando tive que me despedir de você, sem saber quando vou te ver novamente. Mas tem promessa do seu retorno com a Rainha Lothus na Éxótic, e Julinho já me confidenciou te trazer de volta no ano que vem em mais uma dessas Labs maravilhosas e inesquecíveis. Mas pelo visto, só em 2018!
Sentirei saudades, espero que outras pessoas se animem e que possamos a voltar a nos ver como era antigamente, mensal, e quiçá quinzenal.
Querida Festa BDSM, me despeço, te aguardando ansiosamente.

Quaquá

Niterói, 23.11.17

23.10.17

Fetish Lab na Lapa - Sábado - La Paz Club



Amigxs fetichistas, chegou a hora, a Fetish Lab alçando vôo , é a vez de “O Estranho Mundo da Fetish Lab #2 Edição Halloween”!
E como a casa anterior estava ficando pequena para a enorme quantidade de fetichistas, a Lab, a partir de agora, invade um dos espaços alternativos mais conceituados do Brasil: A LA PAZ CLUB!

Serão três, eu falei TRÊS ANDARES liberados, com terraço, para aproveitarmos o melhor do BDSM, na festa carioca que mais bomba no momento. É para bater recorde ou não é?
Mantendo a proposta de trazer a mais alta qualidade musical e de muita variedade em performances, esse evento promete mais uma vez divulgar para um amplo público todas os prazeres das nossas noites fetichistas, enriquecendo e ampliando cada vez mais o BDSM na nossa cidade.
A Fetish Lab, como sempre, vem lotada de belas performances de trample, Shibari, Poney play, Bondage, Spanking, velas e muito mais, tudo isso ao empolgante som fetichista dos melhores Djs , todos mandando o que tem de melhor no Rock and Roll, Classic Rock, Industrial, Synth e outros. Teremos ainda duas pistas, o terraço, o esperado Guarda volumes, X de madeira maciça para plays, X de veludo versão "Cute", Espaço para trample, Foot Fetish, Shibari e outros! Shots de gabriela para os 50 primeiros! Massagista no terraço até as 2h!

Então, anotem a data, é nesse sábado, dia Sábado, 28 de outubro das 23:30 as 6:00. O novo endereço é A La Paz Club! - Rua do Rezende, 82 – Lapa - RJ
Haverá drinks experimentais: Elemento X e Extrato de energia volátil! E a volta deso X de pelúcia!

Ingressos:
 AntecipadosR$ 25,00  - https://goo.gl/aG18y2
 Na hora R$ 35,00 na lista até 1h
 Após 1h ou sem lista R$ 40,00

* Para pôr o nome na lista basta confirmar presença na página da festa no Facebook

Nos vemos lá!

15.8.17

VIDEODROME - SÁBADO - LAPA

Amigxs Fetichistas,

Nesse sábado, dia 19 de agosto, à partir das 23:30 , a Lapa vai receber o inédito Videodrome, evento BDSM idealizado pela mesma galera que produz a maravilhosa Fetish Lab. Os bastidores andam fazendo mistério sobre o que virá, e nada melhor que se adentrar nesse mundo ainda obscuro da nova síndrome BDSM que vem para conquistar os fetichistas cariocas. Como não sei absolutamente nada do que nos espera na noite sábado, reproduzo na íntegra o que a página da festa no Facebook informa:

"O que é Videodrome?

Videodrome é um vício biosensorial.
Que entra no seu corpo e mente.
É um mundo estranho em tempos estranhos.

Então vamos reunir todos que se identifiquem com a vibe liberal e com a contracultura além de juntar elementos com New Wave, Synth, Ebm, Rock em um espaço BDSM FRIENDLY para tentar amenizar os efeitos da nova era.

Nesta edição de estréia traremos:
Nathalia Civetta ( Catastrophe )
Julio Bessa ( Fetish Lab )
Mariana Pinet ( Veneno )
Wilson Power ( Alien Nation )

Cobertura Mari Czr!


Local - MULTIFOCO BISTRÔ - Av. Mem de Sá 126 - Lapa - RJ 

Entrada
R$ 25,00 Antecipados SYMPLA
R$ 35,00 Lista até 1H
R$ 40,00 Sem lista/Após 1H

3.7.17

Fetish Lab - 3 anos - Ata



O dia está nublado, nublado e nebuloso como muitas vezes também fica a nossa memória. Do meu pequeno apartamento voltado para os fundos de um edifício velho no Centro de Niterói, posso ver unicamente um pequeno pedaço do céu apertado entre duas colunas beges e frias. Ouço ao longe o ruído do trafego na rua principal e sinto o sossego de estar sozinho, bebendo uma brahma extra red lager, e tentando buscar no fundo da minha memória algo que tenha alguma verossimilhança com a Fetish Lab de duas semanas atrás.  Porém, é provável que a minha segunda personalidade, ou seja, a do Quaquá, já tenha se auto exorcizado de dentro de mim desde aquele domingo pós-festa de ressaca e ter levado junto consigo as lembranças da noite anterior, e seja como for, não é possível fotografar as recordações. Também não tenho o controle de estabelecer a hora exata em que o Quaquá se retira para ficar nas nuvens, esperando outro evento, para que possa voltar a reencarnar. E mesmo assim quando o faz, ele não quer saber de passado, só se interessa pelo presente. E como ele não liga, e eu não lembro, fico numa posição confortável sobre as possíveis críticas à nossa conduta, elas não parecem direcionadas a minha pessoa.  Não que eu as tenha recebido, pelo menos não me recordo de tê-las, mas só o fato de que hoje, ao me mandarem as fotos do Quaquá na festa, e eu não ter me reconhecido em algumas (especialmente uma que foi batida com todos os amigos ao redor, onde eu seguro o braço da querida amiga Vanessinha) já me deixa de certo modo exposto a alguma análise não muito positiva. EU NÃO LEMBRAR DE ESTAR NAQUELE MOMENTO, TIRANDO AQUELA FOTOGRAFIA, é um tanto assombroso. Isso significa que não tenho memória de quase nada que aconteceu por umas quatro horas naquela madrugada. E se existe esse texto, é porque existem amigos que me contaram um bocadinho da festa. Lembro de todo o sábado sim, lembro bastante do esquenta na rua da festa! Mas da Casa Da Vizinha em diante, onde já se contavam os primeiros minutos do domingo, os relatos são dos meus amigos e de umas poucas anotações de texto que encontrei no meu celular. O que tenho na memória pode ter sido fabricado num sonho, numa viagem ou de olhos fechados no chão. Ei-los:

Rainha Lilith me mandou uma mensagem por WhatsApp dizendo que compareceria à festa, e se a gente poderia ir junto. Nos encontramos na manhã de sábado, por volta das 11:30, e fomos para um restaurante perto da minha casa com a intenção de tomar uma cerveja e bater um rango. Rainha Dória e seu sub apareceram um pouco depois do meio dia para nos acompanhar, e ainda estavam na dúvida se iriam ou não a Lab. A cerveja desceu tão bem, que beliscamos apenas umas batatas do Self Service de R$ 39,90 Kg., e não almoçamos (a intenção era uma refeição completa com arroz e feijão). E lá pelas 13:00 Rainha Lilith pediu uma porra de uma dose de tequila que desceu ainda mais delicioso que a cerveja, então saímos do bar, fomos num depósito de bebida e compramos uma garrafa de José Cuervo e depois uns limões, aí disse a eles que lá em casa além de sal, tinha o novo CD do Roger Waters - que voltou a fazer um som digno de Pink Floyd -, e que a tequila ficaria ainda mais saborosa com essa trilha sonora. Rainha Lilith precisou ir pra casa. E nós três continuamos na bebedeira, ainda existia algumas latas de Skol estocadas na minha geladeira e entornamos o que era para ser entornado. Depois de algumas horas o casal foi para casa se arrumar e eu fui dormir. Acordei três horas depois com eles já produzidos para a festa –  Dória a maior gata, agora transformada em dominadora, tocando minha campainha com dois limões nas mãos e a procura do Parceiro Cuervo já quase finalizado - apressados matamos a garrafa e fomos nos encontrar com Luana e Mariana que já estavam na esquina dentro de um Uber a nossa espera. O motorista deve ter ficado chocado com o papo sadomasoquista que rolou naquele carro do Centro de Niterói a Botafogo. Chegamos na concentração e ainda não havia quase ninguém, minhas últimas lembranças já enegrecidas pela possessão do Quaquá (ou do álcool?) são todas dali: a galera chegando e se sentando a nossa mesa, a golada de cerveja que desceu tão quadrado que quase coloquei tudo pra fora, a caminhada reta em direção à festa de braços dados com a Rainha Isabela e sem mais quase contato com o chão e com o restante das pessoas que estavam na mesa do bar; depois a fila enorme que comecei a enfrentar para entrar na casa, mas que logo alguém me chamou e já me enviou lá para dentro. De eu abraçar o anfitrião Julinho e ter pedido a ele que guardasse meu casaco. O resto é o que me contam, o anotado, e um resquício pequeno de uma memória estranha, que lembra mais um sonho que uma realidade.

Quem abriu a noite foi a Rainha Danete, que fez um trample junto com a Rainha Onça. Quimera fez um belo trample em Gaúcho logo a seguir. Dizem que dancei muito na boate e que fui muito pisado também, e de acordo com Mário, apenas Gaúcho e Peccatore foram mais vezes para o chão do que eu. E que eu também bebi muita água, e que poucas vezes fui visto com uma garrafa de cerveja na mão.  Mas posso me recordar de Mariana e outra Rainha me pisando no palco, de eu cumprimentar Peccatore e Nanda Hell, ambos fantasiados, e de entregar meu celular nas mãos do Gaúcho para algumas dessas vezes em que servi de tapete.  Lembro de ter atrapalhado Akira e Akane na performance deles, isso aconteceu porque a play estava muito disputada para ser vista, e eu temendo esquecer, subi ao palco para relembrar o nome da dupla. Fui corretamente expulso do palco. Depois disso uma tremenda gata fez um trample no gaúcho, e presenciei Branca de Neve e Mal Podo numa bonita cena de velas. Lembro também, mas vagamente, de ter havido uma pequena chateação com um cara que perseguia uma mulher, e que o segurança teve que agir colocando-o para fora.  Fui para o chão e Branca de Neve me fez aquele gostoso e tradicional trample no rosto, colocando todo seu peso e me pisoteando sem pena na cabeça e no rosto.

Algumas ótimas plays rolaram para deleite dos Voyers, em uma delas a Rainha Demônia estraçalhou o Mário com muitos pulos e sufocação. Rainha Raposa, linda como sempre, se esbaldou pisando e batendo em vários escravos. Meu amigo BB Karioca não ficou desaparecido e também chamou a atenção como sempre faz ao receber inúmeros chutes no saco, dessa vez da sua bela e cruel Rainha Alma. Gaúcho serviu docemente de tapete para três Rainhas que subiram de salto alto e fino, e só depois de um bom tempo ficaram descalças e assim pularam bastante nele. Aquele casal charmoso que esteve no encontro “ Ta de pé”, compareceu e roubou a cena em vários momentos, destaque para a cena em que a Rainha passeia por toda a casa com o escravo de quatro como cachorrinho, com coleira e tudo. Rainha Demônia ainda fez aquele violentíssimo trample lotado de altos pulos no  Peccatore, que fez o palco tremer com cada aterrissagem da gata.

O sucesso da festa se deu também pelas inúmeras presenças ilustres que sempre engradecem o nosso meio, não vou lembrar de todos, mas dessa vez tivemos um grupo especial de amigos cuja presença no mesmo espaço é um tanto rara: Cachorrão, Rainha Lindinha com seus gritos contagiantes, os lindos casais Nathan e Vanessa, Saulo e Lúcia.  A bela Sexy lady reapareceu, e também Lady  Pain que não nos visitava há mais de dez anos (se não me engano), e de quebra fez um ótimo trample no Gaúcho. Arsínoe, linda como sempre, Tonhão, Lyon, além das belíssimas transex que nunca recordo os nomes.

Eu e Rainha Maddie combinamos de fazer um trample, ela estava com um calçado tipo coturno, e me perguntou sobre a costela e falei que estava boa, “então vou pular em você” ela disse, e eu topei. Nessa altura eu estava topando tudo, não sentia mais nada. Mas esqueci de consultar meus anjos protetores, pessoas maravilhosas que as vezes deixam de curtir a festa para cuidar da minha integridade física. Aí resultou no desencontro de informações, Rainha Maddie subiu de coturno e começou a pular. Eu estava com a camiseta branca da Lab, e ela é meio escorregadia, e assim Rainha Maddie tinha dificuldade na aterrisagem, seus pés, por duas vezes, se resvalaram nas minhas costelas e ela acabou fixando os pés no chão do palco em desequilíbrio. Foi motivo suficiente para que meus amigos protetores saíssem em meu socorro, separando a Rainha do tapete e me ordenando que se interrompesse a performance.  Lembro exatamente como se fosse agora (umas das únicas lembranças claras que tenho) de Fadinha e Mestre Kinbaku atuando como dois sagazes juízes de MMA enquanto eu me sentava no chão sem entender muito o motivo da interrupção logo no Primeiro Round, e do Gaúcho, como um técnico que acaba de jogar a toalha, se ajoelhando e zangando com o lutador na lona: “hoje você não vai mais para o chão, tá entendido?” Essa pequena e nada discreta intervenção, em pleno palco de uma festa absolutamente lotada, deixou a pessoa que estava me pisando um pouco aborrecida, e é claro que quem ouviu e apanhou fui eu. Ela se sentou, disse que não queria mais me pisar, me deu uns quatro ou cinco fortes tapas no rosto, e terminou o esporro concluindo que “eu dificultei a formação dela como dominadora”. Hoje, domingo, exatas duas semanas após o ocorrido, eu aproveito esse humilde texto para pedir desculpas a Rainha Maddie (pessoa que adoro de todo o coração): Querida Maddie, como todos perceberam, e acho que isso foi unânime, os amigos que interromperam estavam corretamente preocupados com minha costela, e agiram no momento certo para que não houvesse nada grave. Por outro lado, eu sou culpado em não ter informado a eles, com a devida antecedência, de que estava bem, e ademais, como você bem sabe, estou acostumado com o seu trample (a falha foi minha). Depois disso, Fadinha subiu e fez um trample ainda mais violento em mim, mas nesse caso era consentâneo o fato de que nós dois temos uma experiência de anos de festa nesse tipo de performance, então não houve descontinuidade forçada, Fadinha pulou e me pisou inteirinho, como se eu fosse uma tabua lisa e sem dores. Depois disso eu estava meio morto, e Rainha Isabela tirou seus lindos scarpins e me pisou com vontade, os pés com um cheiro delicioso, enfiando os dedos a força na minha boca;  e acho que foi Rainha Mylla que me finalizou no meu último trabalho da noite: subiu sem nenhuma pena e enquanto me pisava com um dos pés, esfregava a sola do outro em meu rosto, me destruindo pro completo. Não lembro como Rainha Mariane me fez entra no Uber, mas quando dei por mim, já estávamos a caminho de Niterói. A festa, como fiquei sabendo, virou a noite e bateu recorde de público.

Primeiramente agradeço ao meus queridxs amigxs do alliance  e ao mestre Kinbaku pela eterna preocupação com minha integridade física. Ao Julinho e a todos os produtores e DJs que fazem da Lab o grande point fetichista do momento nas noites cariocas. Ao Mário pela força nas recapitulações dos acontecimentos. A Mari e Luana, pela companhia nas nossas idas e vindas. Minhas desculpas a Rainha Lilith pelo meu desaparecimento, a Maddie pelas desinformações e a D.M. por qualquer ressentimento. Vivemos em uma sociedade em que se invertem valores, e a conjuntura atual tenta propiciar ainda mais medo e inseguranças nas chamadas “minorias”, e nós, fetichistas, adeptos ou não ao BDSM somos abrangidos pelo termo. Nós estamos recusamos o óbvio e encarando uma sociedade que rejeita o que está fora dos padrões, o conservadorismo é e será nosso principal adversário. Estamos criando valores e construindo uma cultura que envolve sexualidade, resultando, portanto, no preconceito e na desinformação. Não buscamos o biótipo de modelos de novelas e muito mesmo nos idealizamos com a família padrão presente nos outdoors de planos de saúde. Temos orgulho da nossa indeterminação sexual, e buscamos sim o diferente. Nosso o corpo é zona em constante exploração, heterogênea e permeável, flexível e articulável, e nosso prazer não se conforta somente com penetrações, experimentamos o novo, curtimos a dor, e sabemos desde novos que nossa sexualidade não foi feita para reprodução. Planejaremos cada vez mais atos e performances sexuais deliberadamente contrafeitas. Que venham as festas!